_ Sim?
_ O que é concreto?
_ Concreto?
_ Sim, vô.
_ Concreto é uma mistura de cimento, brita, areia e água utilizada na construção civil.
_ Não vô...
_ Como não?
_ Eu quero saber o que é algo concreto. Uma coisa concreta.
_ O concreto é algo concreto. Concreto é tudo aquilo que podemos ver, tocar e sentir. Tudo que é real. Entendeu?
_ Entendi, vô.
Depois de algum tempo.
_ Vô, a gente pode ver a morte?
_ Não, claro que não. Ninguém pode ver a morte. Para vê-la ela teria que estar viva. Isso não é possível. As vezes dizemos: "eu vi a morte" ou "fulano viu a morte", nesse caso estamos usando uma figura de linguagem. Há vários tipos de figuras de linguagem. Você já estudou isso? Não? Depois você vai as figuras de linguagem.
_ Vô alguém pode tocar na morte?
_ Não, porque ela não é uma coisa viva.
_ Vô, você já sentiu a morte?
_ Vire essa boca pra lá, menino! Não senti, nem quero senti-la nem conhecê-la tão cedo.
Passados alguns minutos.
_ Vô pelo que você explicou eu acho que a morte não é real.
_ Como assim, não é real? Claro que a morte é real.
_ Alguém pode ver a morte?
_ Não.
_ Pode tocar nela?
_ Tocá-la.
_ O que vô?
_ Deixa pra lá. Não, ninguém pode tocar na morte.
_ Pode sentir?
_ Talvez no fim da vida, quando se está morrendo. Sem ser assim, creio que não.
_ Vô você disse que tudo que a gente vê, sente e pode pegar é concreto, né?
_ Correto.
_ Então a morte não é real.
_ Você não entendeu direito. A morte, o fato de alguém deixar de existir, é real. Exemplo: A morte de Maria. Isso é concreto. A palavra morte, isolada, é um substantivo abstrato. Portanto, a palavra morte pode ser concreta ou abstrata, depende da frase, tudo bem?
_ Tudo bem. Se é abstrato não pode ser concreto, certo vô?
_ Certíssimo! Mas por que esse interesse pela morte?
_ Por causa do zero que o professora me deu.
_ Zero? Por que?
O neto explicou que a professora fizera uma pergunta sobre a morte e ele tinha respondido que a morte é concreta. Entretanto, a professora considerou a resposta errada e dera o zero. Ele explicou, ainda, que a avaliação havia sido oral e que não lembrava direito da pergunta.
O avô analisou bem a situação e disse ao neto para ele não ficar chateado que ele iria falar com a professora e tudo seria resolvido da melhor maneira possível.
Na escola, o avô procurou a direção e contou o caso do neto que ficara chateado com o zero - injusto segundo ele - que a professora lhe dera na frente dos colegas, os quais passaram a rir dele.
_ Estou tentando evitar um problema maior. Talvez esse fato leve a um TEIA. Ninguém pode prever, não é verdade?
O diretor não sabia o que era TEIA mas, para não demonstrar seu desconhecimento sobre o assunto, não perguntou e encaminhou o avô à professora Ernestina. Esta foi irredutível. A criança errara a resposta e ela não voltava atrás. E, além do mais, nunca ouvira falar em Transtorno Escolar por Injusta Avaliação.
O pai procurou a escola fazendo valer seus conhecimentos advocatícios, alegando, inclusive, o doutorado em Harvard. Não adiantou. A professora não arredou pé.
Depois foi a vez da genitora que foi direto à professora sem passar pela coordenação e muito menos direção.
_ Tia Ernestina eu estou aqui em nome da MAE e ...
_ Em primeiro lugar, eu peço que senhora não me chame de tia, uma vez que nós não temos nenhum parentesco. Em segundo lugar, a senhora está aqui em nome da mãe de quem?
_ Não é mãe, dona Ernestina. É MAE - Mães Amigas da Escola.
Não surtiu efeito. A professora não se abalou nem modificou a nota. Como não havia nada escrito, uma vez que a avaliação fora oral, ficava o dito pelo não dito. Era a palavra dela contra a do aluno. Diante do impasse e para evitar transtornos, bulling e outros problemas, a família achou por bem transferir o aluno.
Estava tudo certo para a transferência quando a alma da avó do aluno resolveu entrar em cena e infernizar a vida da professora Ernestina.
Depois de um mês sem dormir- praticamente - devido aos horríveis pesadelos que povoavam seu sono, a professora aparentava um aspecto lastimável: olheiras profundas, tinha sobressaltos, falava sozinha, dormia durante as aulas e uma série de outros agravantes.
A fim de evitar consequências ainda mais desagradáveis, a escola promoveu uma reunião sigilosa entre a direção, a coordenação, a professora, avô, o pai, a mãe e Joãozinho. A professora pediu desculpas ao aluno, modificou a nota do mesmo e a poeira assentou.
Na sala de aula tudo voltou ao normal. Turma satisfeita com a eficiência da professora e Joãozinho feliz como sempre fora. Entretanto quando os dois, Joãozinho e a professora, se encontram em qualquer outro local da escola, resmungam um para o outro:
_ Abstrato, diz a professora.
_ Cincreto, responde Joãozinho.